Numa aldeia do Barroso, há uma televisão que muda de lugar de quatro em quatro anos.
Durante quase todo o tempo fica encostada a um canto, discreta, entregue ao quotidiano. Mas quando chega o Mundial, a sala reorganiza-se. As cadeiras aproximam-se. Alguém traz mais um banco da cozinha. Outro encosta-se ao portal. A casa transforma-se, por algumas horas, num lugar de encontro.
Uma criança senta-se no chão e vê o jogo sem compreender inteiramente as regras. Não sabe ainda o que é uma tática ou um fora de jogo. Mas percebe outra coisa. Percebe que os adultos, que passam o ano divididos por trabalhos, preocupações e caminhos diferentes, olham agora para o mesmo lugar.
É assim que se aprende a pertença.
Antes das palavras.
Antes das explicações.
O Barroso sempre soube alguma coisa sobre isso.
Durante séculos, a vida nestas montanhas ensinou que ninguém atravessa sozinho um inverno difícil, uma colheita exigente ou uma ausência prolongada. A comunidade nunca foi uma teoria. Foi uma necessidade. Talvez por isso exista aqui uma compreensão quase instintiva do valor do coletivo.
O futebol é apenas o motivo visível.
O que verdadeiramente reúne as pessoas é outra coisa.
É a procura de um “nós” num tempo que insiste em fragmentar tudo. É a necessidade de continuar a fazer parte de uma história maior do que a nossa própria vida.
Quando Portugal entra em campo, leva consigo muito mais do que jogadores. Leva aldeias que perderam habitantes, mas não perderam memória. Leva emigrantes que continuam a medir a distância em saudades. Leva crianças que procuram o seu lugar no mundo e idosos que guardam dentro de si o mundo que já desapareceu.
Talvez seja por isso que o resultado nunca explica tudo.
Porque a vitória mais importante acontece antes do apito inicial.
Acontece quando uma aldeia do Barroso se reúne diante de uma televisão e, por instantes, cada pessoa reencontra aquilo que tantas vezes lhe falta no resto do ano: a certeza tranquila de pertencer.
Porque uma aldeia sem país é apenas um lugar.
E um país sem aldeias é apenas um mapa.
Entre uma coisa e outra existe uma comunidade. E talvez seja isso que milhões de portugueses procuram quando olham para um relvado situado do outro lado do mundo: não um vencedor, mas um reflexo de si próprios.
VIVA PORTUGAL!
Maria José Afonso
Jornalista