Portugal foi eliminado do Mundial 2026 nos oitavos de final, perante Espanha, por 1-0, com um golo de Mikel Merino já nos descontos, em Arlington. É a terceira vez que a seleção nacional cai nesta fase — repetindo o que já tinha acontecido em 2010 e em 2018, também frente aos espanhóis. Encerra-se assim, muito provavelmente, o último Mundial de Cristiano Ronaldo, o capitão que se tornou, esta edição, o primeiro jogador da história a marcar em seis Campeonatos do Mundo diferentes. Mas encerra-se também — e é este o ponto que importa discutir — uma janela de exposição política, económica e reputacional para Portugal que o país, mais uma vez, corre o risco de não saber ler em toda a sua dimensão.
Um Mundial norte-americano e uma oportunidade tripartida
O Mundial 2026, organizado em conjunto pelos Estados Unidos, pelo Canadá e pelo México, é a maior edição de sempre da prova, com 48 seleções e 104 jogos. Para Portugal, tratou-se de bastante mais do que futebol: foi presença, imagem e negociação num dos mercados mais competitivos do mundo em termos de atenção mediática e investimento. Um estudo do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) estima que o Mundial poderá gerar até 945 milhões de euros de impacto económico em Portugal — o maior valor de sempre numa competição que o país não organiza. Uma fatia relevante desse valor não vem apenas do consumo em torno dos jogos, mas da economia digital, das plataformas de streaming e da exposição internacional que uma seleção com Cristiano Ronaldo consegue gerar, de forma muito distinta da de qualquer outra seleção.
Foi isso mesmo que se viu em Toronto, quando milhares de portugueses e luso-descendentes se juntaram para receber a seleção antes do jogo com a Croácia — uma mobilização popular que nenhuma outra seleção de dimensão semelhante à nossa conseguiu replicar neste Mundial. Não é por acaso. É porque, goste-se ou não, Portugal tem, no seu grupo, o fenómeno mediático mais valioso do futebol mundial.
A marca Cristiano Ronaldo vale mais do que a soma da seleção
Esta não é uma opinião isolada. Analistas de marketing desportivo têm sido claros: a marca Cristiano Ronaldo tem, só por si, um peso superior ao de toda a restante seleção nacional junta — não do ponto de vista desportivo, mas do ponto de vista do valor de marca, do alcance mediático e da capacidade de gerar investimento e atenção internacional. É essa mesma lógica que explica por que motivo, ainda antes do início do Mundial, foi Cristiano Ronaldo — e não qualquer outro jogador de qualquer outra seleção participante — quem foi recebido na Casa Branca por Donald Trump, num jantar oficial que juntou também o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, Elon Musk e o presidente da FIFA, Gianni Infantino. Ronaldo tornou-se apenas o terceiro desportista português, depois de Carlos Lopes e Neemias Queta, a ser recebido oficialmente na Casa Branca por um presidente dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a imprensa económica nacional e internacional tem dado conta, mês após mês, de um crescente interesse do mercado — não pela seleção portuguesa, mas pela marca pessoal Cristiano Ronaldo: participações em plataformas de streaming desportivo com projeção internacional, negócios no imobiliário, na saúde, na moda, na tecnologia e mais recentemente uma participação relevante numa distribuidora brasileira que transmite jogos do próprio Mundial. Este é o retrato preciso de um ativo que já não pertence apenas ao desporto, mas à economia, à diplomacia informal e à imagem internacional de um país inteiro.
Eis o paradoxo que este artigo quer expor sem rodeios: investe-se na marca Cristiano Ronaldo; investe-se muito menos, proporcionalmente, na marca Portugal que o acompanha. E, no entanto, é a segunda que mais beneficia, de forma indireta, sempre que a primeira sobe de valor. Ter um Cristiano Ronaldo na sua seleção nacional é ter um lugar à mesa dos grandes que nenhuma estratégia diplomática, por si só, compraria com a mesma rapidez e à mesma escala. Há seleções neste Mundial com percursos desportivos excecionais, mas que não enchem estádios de receção em Toronto, não abrem manchetes em três continentes e não levam presidentes de outras potências a convidar os seus jogadores para jantares de Estado. A diferença não é acaso — chama-se Cristiano Ronaldo, e Portugal tem-no, ainda, ao seu serviço.
Os heróis desportivos não se deitam abaixo quando perdem
É por isto que vale a pena dizer, com toda a clareza que o tema exige: em nenhum lugar do mundo os grandes heróis desportivos nacionais são destronados pelo seu próprio povo no dia em que perdem uma prova. O Brasil nunca deixou de venerar Pelé por não ter conquistado todos os Mundiais em que jogou. O automobilismo mundial nunca deixou de erguer Ayrton Senna a símbolo nacional do Brasil apesar das derrotas que também fizeram parte do seu percurso. É assim em quase todas as modalidades e em quase todos os países: o herói desportivo é medido pelo conjunto da sua obra e pelo que representa para a nação, não pelo resultado de um único jogo eliminatório. Portugal deveria ser capaz do mesmo raciocínio em relação a Cristiano Ronaldo — e, sempre que não o é, empobrece-se a si próprio, tanto simbólica como estrategicamente.
A presença do primeiro-ministro: pequenez de olhar, não excesso de gasto
Muito se discutiu, nas últimas semanas, sobre as deslocações do primeiro-ministro, Luís Montenegro, aos jogos da seleção nacional — a Houston, a Toronto e a Dallas. Circularam nas redes sociais números soltos, como uma estimativa de 100 mil euros por jogo, num total de cerca de 200 mil euros, apresentados como certos e incontestáveis. O exercício de verificação de factos feito pelo Polígrafo mostrou, no entanto, que esses valores não têm qualquer sustentação documental: o gabinete do primeiro-ministro esclareceu que as deslocações foram feitas em voos comerciais, nalguns casos mesmo em companhias low-cost, integradas em deslocações que o chefe do executivo já teria de fazer por outros compromissos internacionais, como a cimeira da NATO em Ancara. A mesma verificação recordou ainda que Montenegro esteve longe de ser o único chefe de governo europeu presente nos estádios deste Mundial: os primeiros-ministros da Croácia, da Noruega e da Escócia fizeram exatamente o mesmo, acompanhando as suas seleções nos Estados Unidos e no Canadá, sem que isso tenha gerado a mesma polémica doméstica.
Aqui reside, precisamente, a pequenez de olhar que este artigo quer denunciar: um primeiro-ministro que vai ao encontro das comunidades portuguesas residentes na América do Norte, que representa o país junto dos seus “embaixadores” desportivos e que compreende o valor estratégico, diplomático e económico de estar presente onde a atenção do mundo está posta, não está a gastar mal o dinheiro dos portugueses — está a fazer, corretamente, o que a diplomacia económica de qualquer país atento a estas dinâmicas já devia fazer há muito. Criticar essa presença sem qualquer sustentação factual sobre custos reais é, no mínimo, um exercício de má-fé; ignorar o que estava, de facto, em jogo — visibilidade, comunidade, posicionamento internacional — é não perceber a diferença entre despesa e investimento.
O que fica por aprender, agora que a seleção está fora
Portugal está fora do Mundial. É possível que, para muitos dos que criticaram Cristiano Ronaldo ao longo dos últimos anos, esta eliminação traga um certo alívio — a sensação de que, sem ele em campo, tudo correrá, enfim, mais tranquilamente. Seria, no entanto, um erro de leitura confundir alívio com vitória. O dia em que Cristiano Ronaldo deixar definitivamente de vestir a camisola da seleção nacional será também o dia em que Portugal perceberá, com maior nitidez do que hoje, quanto da sua visibilidade internacional, do seu poder de atração de investimento e da sua capacidade de se sentar à mesa dos grandes dependia, em larga medida, de ter o melhor jogador do mundo a representar as cores nacionais.
Este artigo não pretende branquear críticas legítimas, feitas com fundamento, a decisões desportivas ou pessoais de qualquer figura pública — Cristiano Ronaldo incluído. Pretende, isso sim, opor-se à leviandade com que, tantas vezes em Portugal, se ataca aquilo que mais valor traz ao país, sem se fazer, em contrapartida, a contabilidade estratégica do que se ganha em troca. Fica a esperança de que esta porta não se feche em definitivo: de que Portugal aprenda, a tempo, a acarinhar aquilo que Cristiano Ronaldo já deu e ainda pode dar à imagem do país, colocando-o, com inteligência e sem complexos, ao serviço da nação. Porque a análise geopolítica e económica deste Mundial, para Portugal, não devia terminar com a eliminação nos oitavos de final — devia, isso sim, começar agora, com uma pergunta simples: o que fizemos, e o que faremos, com o capital de atenção mundial que um único português nos trouxe à mesa?
Carla Mouro
Consultora Estratégica