Da queda de Baggio ao sonho português

1 de Julho de 2026

Há algo de circular na história dos Mundiais disputados nos Estados Unidos. O torneio de 2026 remete inevitavelmente para o verão de 1994, quando o futebol viveu uma das finais mais emblemáticas da sua história. No Rose Bowl, em Pasadena, Brasil e Itália enfrentaram-se num encontro que reuniu alguns dos maiores nomes da época: Romário e Bebeto de um lado; Baggio, Maldini e Baresi do outro. O empate sem golos levou a decisão para os penáltis, terminando com a consagração brasileira e a imagem eterna de Roberto Baggio a enviar a bola por cima da baliza.

Mais de três décadas passaram. O futebol transformou-se, acelerou o ritmo, sofisticou métodos, entregou-se à tecnologia e à análise de dados. Mudaram os jogadores, os treinadores e até a forma de observar o jogo. E aquilo que parecia impensável em 1994 tornou-se realidade em 2026: a Itália, uma das grandes pátrias do futebol, voltou a ficar fora de um Campeonato do Mundo.

Talvez essa seja a maior prova de que o futebol nunca é apenas futebol. Acompanha os ciclos das sociedades, reflete grandezas e fragilidades, espelha a vitalidade ou o declínio de escolas, culturas e gerações. Como observou Arrigo Sacchi, uma das vozes mais lúcidas do futebol italiano, esta é «a coisa mais importante das coisas menos importantes». E continua a sê-lo, porque poucos fenómenos conseguem, ao mesmo tempo, contar tão bem a história de um povo e despertar emoções tão universais.

Neste contexto, Portugal surge com uma oportunidade rara: afirmar definitivamente, à escala planetária, a excelência da sua escola de futebol. Depois de décadas a formar jogadores de elite e a consolidar uma identidade competitiva própria, o Mundial de 2026 oferece-nos a possibilidade de transformar reconhecimento em consagração, confirmando perante o mundo a vitalidade de uma das mais notáveis fábricas de talento do futebol contemporâneo.

Gonçalo Breda Marques

Presidente da Fundação Mata do Bussaco

Herminio Loureiro
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