Quando a História já não basta

5 de Julho de 2026

O desporto deixou de ser tão previsível como foi durante décadas. Durante muito tempo, ganhou quase sempre quem tinha mais estrutura, mais talento e mais capacidade instalada. Hoje, esses fatores continuam a contar, mas já não chegam para explicar os resultados.
O futebol é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação. Apenas oito seleções conquistaram o Campeonato do Mundo, um dado que continua a marcar a história da competição. Mas o presente já não se deixa explicar apenas pelo passado. A Croácia foi finalista em 2018. Marrocos chegou às meias-finais em 2022. O jogo, tal como a ciência e a tecnologia, globalizou-se e o conhecimento espalhou-se.
Há ainda um fator que ganhou uma importância decisiva: o desgaste. Os calendários são cada vez mais exigentes, os jogadores acumulam mais jogos, mais viagens e mais pressão. O talento continua a ser determinante, mas já não decide sozinho. A capacidade de chegar ao momento certo nas melhores condições físicas tornou-se uma variável fundamental.
O fenómeno não é exclusivo do futebol. Ainda recentemente, em Roland Garros, uma tenista proveniente da fase de qualificação conseguiu alcançar a final do torneio, contrariando rankings, previsões e expectativas. Mais do que uma surpresa, foi um sinal dos tempos.
Talvez por isso o próximo campeão do mundo seja menos uma questão de história e mais uma questão de contexto. Menos uma consequência da tradição e mais o resultado da capacidade de cada seleção apresentar os seus melhores jogadores no momento certo.
A Seleção Nacional já não é uma surpresa nem um mero outsider. Os seus jogadores competem nos melhores clubes do mundo, disputam finais, conquistam títulos e acumulam experiência. Ao mesmo tempo, o futebol português consolidou um percurso de evolução estrutural, na formação, na organização e na competitividade, que lhe permite ombrear com as melhores escolas do mundo.
Mas Portugal chega também com um desafio que partilha com as principais candidatas ao título: o desgaste acumulado de uma época longa e exigente para muitos dos seus jogadores. A diferença poderá estar na capacidade de equilibrar essa experiência, com a energia, a ambição e a disponibilidade física de uma nova geração.
É precisamente essa conjugação que torna esta Seleção particularmente interessante. De um lado, jogadores habituados a disputar e vencer ao mais alto nível. Do outro, atletas que chegam com a irreverência, a fome de sucesso e a frescura próprias de quem quer conquistar o seu espaço.
O futebol está mais equilibrado do que nunca. Talvez por isso, o próximo campeão não seja necessariamente o que tem mais história, mas aquele que souber juntar melhor talento, experiência, ambição e disponibilidade física no momento certo.
Portugal reúne muitos desses argumentos.
E isso, mais do que alimentar expectativas, justifica a esperança.

Américo Miguel Soares

Presidente da Federação Nacional de Squah

Herminio Loureiro
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