Se o futebol fosse uma ciência exata, os mercados de apostas com os seus algoritmos baseados na mais avançada IA, seriam, na sua frieza matemática e pelo volume de dinheiro em jogo, os analistas mais assertivos do planeta. E, ao dia de hoje, são eles que nos dizem que Inglaterra, Espanha, Brasil, França e Argentina lideram o pelotão dos favoritos ao Mundial 2026. Portugal entra no grupo imediato, com margem suficiente para ser levado a sério.
A Inglaterra tem o talento, mas carrega o peso histórico de quem nunca venceu fora de casa. A Espanha é sistémica e letal, mas pode pecar por ausência de instinto assassino nos momentos de rutura. O Brasil com Ancelotti ao comando, tenta renovar-se, mas com a fragilidade emocional que lhe é crónica em Mundiais recentes e o problema de como resolver a questão do estado físico de Neymar. A Argentina de Scaloni é campeã em título — e os campeões envelhecem sempre mais depressa do que parecem.
Portugal tem provavelmente um dos melhores plantéis de sempre, mas precisa de mostrar isso em campo. Ter CR7, Bruno Fernandes, Leão, Vitinha e João Neves não chega — Mundiais ganham-se com alma coletiva, não com estrelas individuais alinhadas no papel. Foi essa a lição recente que o PSG a todos nos relembrou.
A França ainda não começou os jogos a sério, mas a gestão do balneário parece uma brincadeira de amadores e crianças. Os conflitos entre jogadores, os egos mal geridos, os grupos paralelos de poder, a discussão à volta dos prémios de jogo e bilhetes para as famílias dos jogadores evoca, com perturbadora exatidão, o nosso Saltillo de 1986, quando chegámos ao México como candidatos sérios e regressámos como lição de humildade coletiva.
Mas este será o fim de uma era que não volta. Este é o último Mundial do nosso CR7, Messi e Neymar. Três nomes que definiram vinte anos de futebol global. Quando o apito final soar, não termina apenas um torneio — termina uma geração de ouro que não se repete. O que vem a seguir ainda não tem nome. E isso, convenhamos, é a parte mais desafiadora de toda esta dança.
Luís Miguel Henrique
Advogado | Consultor Estratégico